Portuguese
Reportagem: Francisco José (Vigia de Nazaré, Pará)Madrugada em alto-mar. Um grupo de homens se arrisca em meio a toneladas de peixes. Mas será que essa fartura está mesmo com os dias contados? Nossa viagem em busca de uma resposta começa no norte do país. Em Vigia de Nazaré, no Pará, embarcamos para uma pescaria em alto-mar.Acompanhamos a viagem dos pescadores. Os barcos partem pelo Rio Pará ao encontro do Oceano Atlântico. Só a distância entre uma margem e outra na foz do rio é de 60 quilômetros. Eles ficam até 90 dias em alto-mar.O cozinheiro e pescador Mário Moraes, os pescadores Natanael, Manoel e Edvaldo dos Santos, o geleiro Luiz Valdecir de Souza e o comandante José Ramos da Silva: foi com eles que nós convivemos em uma longa jornada, que começou na foz da Bacia Amazônica.O barco, de pesca industrial, tem capacidade para armazenar 40 toneladas de peixes. A cabine do comandante é bem equipada tem até sonar para localizar os cardumes. O equipamento moderno ajuda muito.A pesca industrial é feita por dois barcos. As redes são esticadas entre um e outro, por um sistema de roldanas e cabos de aço. É a chamada pesca de arrasto. Para isso, uma segunda embarcação acompanha a outra o tempo todo.Para quem está acostumado a viver em terra firme, as acomodações do barco são bem modestas: duas cabines com beliches, um pequeno banheiro e a cozinha, onde quem manda é seu Mário. Aos 60 anos, além de pescador, ele é cozinheiro e dos bons. Prepara pelo menos quatro refeições por dia peixe, frango, carne vermelha. Diz que passou a ser cozinheiro por acaso, há mais de 20 anos."Estava trabalhando como pescador. Certa vez, fui em uma embarcação que não tinha cozinheiro. Me convidaram para cozinhar e eu aceitei", lembra seu Mário.A beleza do pôr-do-sol anuncia que está começando nossa primeira noite em alto-mar. Em pouco tempo vamos cruzar a linha imaginária do Equador. É no outro lado do mundo, um pouco além da fronteira, que se concentram os grandes cardumes da região.Para se ter uma idéia de como os pescadores avançam pelo mar, nos aproximamos da Linha do Equador, deixando o Hemisfério Sul e entrando no Hemisfério Norte. Quando chegamos ao Hemisfério Norte, começa a pescaria. O espetáculo do amanhecer coincide com um momento de muita tensão no barco. Os pescadores fazem o primeiro lance de rede. Cada um assume seu posto, sua tarefa. Depois do lançamento, os dois barcos se aproximam. A rede vai ser arrastada pelas duas embarcações ao mesmo tempo, uma ao lado do outra. Durante as manobras, a comunicação entre os barcos é feita através de um apito. Tudo sob orientação do comandante. É ele quem determina o local da pesca, a hora de jogar e recolher a rede."A rede tem aproximadamente 35 metros. Mas na água ela tem de 14 a 16 metros, dependendo da abertura das duas embarcações, já que ela vem 400 metros atrás do barco", diz o comandante.Depois de duas horas de arrasto, o comandante José Ramos da Silva manda puxar a rede. Toda a tripulação do barco participa da operação. A rede surge, é içada por um guindaste sobre o convés e aberta. Um cardume de arraias foi capturado. Até quatro anos atrás elas eram devolvidas ao mar porque não tinham valor de mercado. Hoje, são consumidas, principalmente na região Nordeste e também em países da Europa, como França e Espanha.Os pescadores começam a trabalhar na separação dos peixes. Nessa hora, todo cuidado é pouco. As arraias têm ferrões no rabo. As ferroadas são muito dolorosas e podem inflamar. Por isso, a primeira coisa a ser feita é retirar o ferrão. Só depois elas são encaminhadas para Luiz Valdecir, o geleiro, responsável pela conservação do pescado. O barco tem capacidade para armazenar 40 toneladas de gelo.Quase todo pescador tem cicatrizes de ferroadas de arraias e ferimentos de outros peixes. Seu Mário já ficou seis meses de licença médica, em uma das vezes em que foi atacado por uma delas."Só de peixe, já peguei uns seis furos: bagre, cambéu... Passando disso, tudo é lazer", brinca o pescador Edvaldo dos Santos.É claro que nem tudo é lazer. Mas, sem as brincadeiras, como seria a jornada desses homens sempre à beira do perigo? Hora do churrasco. E ele acontece ali mesmo, no meio do convés. É o "avoado", o peixe assado em um fogareiro de carvão. Uma festa para os pescadores. Seu Mário providencia as guarnições: farofa, arroz, verduras. E todos comemos ali mesmo. Ao redor, para onde se olhe, só se vê céu e mar.A pesca do mero está proibida em todo o Brasil, para preservação da espécie. Mas a pesca não intencional é permitida. É quando o peixe vem na rede por acaso, no meio de outros cardumes.
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By renankauany
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